terça-feira, 3 de Agosto de 2010

Carlos Seixas (1704-1742) - biografia e catálogo das obras

Nascido em Coimbra a 11 de Junho de 1704, José António Carlos de Seixas, o mais proeminente compositor português de música para tecla da primeira metade do século XVIII, iniciou os estudos musicais com seu pai Francisco Vaz, organista na Sé daquela cidade entre 1699 e 1718, substituindo-o nestas funções após a sua morte ocorrida precisamente nesse ano de 1718.

Dois anos depois, Seixas muda-se para Lisboa onde chega precedido de grande fama, pois o seu virtuosismo desde muito novo que fôra notado. Na capital, assume funções de organista na Santa Basílica Patriarcal e na Capela Real, para além de compor e de ensinar cravo nas casas da corte.

Ao contrário dos seus contemporâneos Francisco António de Almeida, António Teixeira e João Rodrigues Esteves, que foram bolseiros da coroa portuguesa em Roma entre 1716 e 1728, Seixas parece nunca ter saído de Portugal, tendo-se formado na escola de seu pai, herdeira da tradição organística ibérica do século XVII.

Exímio cravista, Seixas compôs (segundo testemunhos da época), cerca de 700 Toccatas ou Sonatas. No entanto, apenas chegaram até nós cerca de uma centena, tendo muitas delas provavelmente desaparecido aquando do terramoto de 1755.

Carlos Seixas atribui indiferentemente o título de Toccata ou Sonata às suas composições para tecla, sendo certo que nas suas obras, estas designações significam rigorosamente a mesma coisa, ou seja, são peças para se tocarem no cravo, clavicórdio ou órgão, que na maior parte dos casos têm a mesma forma da Sonata bipartida usada pelos seus contemporâneos italianos e espanhóis. De grande interesse também, são as suas obras para tecla que nos lembram a forma da Suite, como por exemplo Toccatas com Minuetes, Gigas, ou outros andamentos. De realçar ainda a sistemática utilização que Seixas faz do Minuete (dança de origem popular em compasso ternário tranquilo, que se torna a partir de 1650 a dança cortesã predilecta de Luís XIV).

Carlos Seixas demonstra em algumas das suas Sonatas uma técnica plenamente desenvolvida e exigente. No entanto, a sua inspiração é mais forte no domínio da invenção melódica, em especial nos andamentos lentos e em alguns minuetes, onde encontramos verdadeiramente a alma portuguesa, a saudade, a ternura e sobretudo uma grande simplicidade. Atributos que levaram à formação de uma escola portuguesa definida, que se distingue das outras precisamente pela sua forma de expressão.

A propósito desta questão da alma portuguesa na música de Carlos Seixas, Santiago Kastner, no livro que escreveu sobre este compositor, diz o seguinte:

“Na sua individualidade e original disposição psíquica reside um dos maiores encantos da música de Seixas. É essa alma poética e dedicada que imprime a esta arte o cunho do “estilo Português”. (…) “Como qualidades apontaremos a sobriedade, a compreensão imediata do discurso estético, a simplicidade, a despreocupação na mistura do aristocrático requintado com o místico saudável, a vitalidade”. (…) “A sua frescura e espontaneidade nunca nos cansarão, jamais causarão tédio. Penetra a sua música até ao nosso coração para conquistar nele um lugar duradoiro”.

Em 1721 chega a Portugal Domenico Scarlatti contratado por D. João V para Mestre da Capela Real e professor de música da Infanta D. Maria Bárbara.

Mário de Sampaio Ribeiro, numa palestra sobre Carlos Seixas, retrata assim o episódio: “No ano seguinte (1721) veio a estabelecer-se na corte um dos maiores músicos do seu tempo e o melhor cravista europeu – Domenico Scarlatti. Espírito superior, artista na mais alta acepção do termo, Scarlatti deve ter tomado José António Carlos à sua conta, de pasmado por seu engenho e por seus quase inacreditáveis dotes de improvisador. E após 8 anos de convívio, quando o célebre napolitano abalou para Madrid, no séquito a nova Princesa das Astúrias – a Infanta Dona Maria Bárbara, cujo professor fora – deixava ficar em Lisboa um cravista familiarizado com o estilo galante, que trouxera consigo”.

Ainda a propósito da estadia de Scarlatti em Portugal, José Mazza, falecido por volta de 1798/99, retrata no seu Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses, o seguinte e curioso episódio: “até ao presente não teve Portugal outro organista tão famoso, quis o Sereníssimo Senhor Infante D. António que o grande Scarlatti, pois se achava em Lisboa no mesmo tempo, lhe desse alguma lição regulando-se por aquela ideia errada de que os portugueses por mais que façam nunca chegam a fazer o que fazem os estrangeiros, e mandou ao dito; este apenas o viu pôr as mãos no cravo conhecendo o gigante pelo dedo lhe disse = Vossa mercê é que me pode dar lições, e encontrando-se com aquele Senhor lhe disse = Vª Alteza mandou-me examinar, pois saiba que aquele sujeito é dos maiores professores que eu tenho ouvido”.

Seixas era sem dúvida um exímio cravista e um compositor extraordinariamente dotado. Para além das numerosas Sonatas que compôs e que chegaram até nós, Seixas legou-nos também um belíssimo concerto para cravo e orquestra de cordas, duas Sinfonias ou Aberturas orquestrais e algumas obras de carácter religioso, de onde se destacam a Missa em Sol M, um Dixit Dominus e um Tantum ergo.

O Concerto em Lá M para cravo e orquestra de cordas de Carlos Seixas, constitui um dos primeiros exemplos deste género em toda a Europa, apresentando-se como um contributo original para o barroco musical europeu, já que em relação ao período em que foi composto (primeira metade do século XVIII), pode ser considerado como fruto do génio criador de Seixas, pois é pouco provável que este tenha conhecido os concertos para cravo que os seus contemporâneos escreveram.

Os concertos para cravo de Johann Sebastian Bach são posteriores a 1730 e os de Haendel a 1735. Contudo, é possível que Seixas tenha tido conhecimento das obras concertantes de Vivaldi, Geminiani, Corelli ou Albinoni, mas estes não escreveram concertos para cravo com acompanhamento instrumental.

A Sinfonia em Si b M para orquestra de cordas e baixo contínuo está escrita ao estilo da Abertura italiana, com a sequência de andamentos rápido / lento / rápido e a Abertura em Ré M para orquestra de cordas, oboés, trompas, trompetes, tímpanos e baixo contínuo, apresenta-se como o único exemplo na península ibérica de uma Abertura em estilo francês. Desta forma Seixas afastava-se dos modelos italianos e revelava o seu conhecimento das composições em “estilo francês” de Lully, Rameau, Telemann ou Haendel.

No capítulo da música sacra, Seixas escreveu páginas de grande beleza mostrando acima de tudo uma grande mestria na escrita para vozes. Prova disso é não só a sua Missa em Sol M, como também o Salmo “Dixit Dominus” e o lindíssimo Hino Tantum ergo.

Segundo Barbosa de Machado, amigo pessoal de Seixas e autor da “Biblioteca Lusitana”, o nosso célebre cravista e compositor, teria vindo para a capital com a intenção de se ordenar. No entanto tal não aconteceu, tendo acabado por se casar quando contava 27 anos de idade (a 8 de Agosto de 1731), com Maria Joana Tomásia da Silva, de quem teve dois filhos e três filhas. Na altura residia na freguesia de São Nicolau.

Carlos Seixas faleceu a 25 de Agosto de 1742 em Lisboa, na sua casa por detrás da Igreja de Santo António, tendo sido sepultado no carneiro da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Basílica de Santa Maria (actual Sé Patriarcal).

Barbosa de Machado, refere assim o episódio da sua morte – que “Enfermando de hum reumatismo, que degenerou em febre maligna se dispôs catolicamente para a morte recebendo todos os sacramentos, e recitando a Ladainha de Nossa Senhora expirou a 25 de Agosto de 1742, quando contava 38 anos, dois meses e 14 dias de idade”


Catálogo das obras de Carlos Seixas

Música para tecla
Cerca de 100 Toccatas
2 Minuetes (separados) – 1 Sinfonia (provável redução para tecla de uma obra orquestral)

Distribuídos da seguinte forma:
BN – dois manuscritos – um com 4 Toccatas, outro com 10 Sonatas, (a indicação Toccata ou Sonata nas peças de Seixas, significa rigorosamente a mesma coisa)
BA – um manuscrito com 17 Toccatas, 1 Minuete separado e 1 Sinfonia, (mais 66 Minuetes separados – não identificado o autor, talvez Seixas)
Biblioteca da Universidade de Coimbra – dois manuscritos – um com 28 Toccatas, outro com 29 Toccatas e 1 Minuete separado.
(É de notar que algumas Toccatas encontram-se repetidas nos vários manuscritos).

Música orquestral

Em depósito na Biblioteca da Ajuda: Abertura em Ré M (2 ob, 2 tr, 2 tp, tímpanos e cordas) / Sinfonia em Si b M (cordas) / Concerto para cravo em Lá M (cravo e cordas)

Música sacra

Em depósito na Biblioteca da Ajuda:
Dixit Dominus (SCT, coro, 2 tp e cordas)

Em depósito na Biblioteca Nacional:
Benedictus, a duo a 5 com vls (Benedictus e Hossana)

Em depósito na Sé de Lisboa:
Tantum ergo a 4 vozes e órgão - Ardebat vincentius a 4 vozes e órgão

Em depósito na Sé de Viseu:
Conceptivo glorioso a 5 vozes (2SCTB e bc) Gloriosa Virginis Mariae a 5 vozes (2SCTB e bc) Sicut cedrus (4 vozes e bc) Missa em Sol M (SCTB, coro e cordas)

Em depósito na Sé de Évora:
Dixit Dominus com vls, órgão e clarins

Em depósito na Biblioteca Pública de Évora:
Responsórios dos Reis q’dis iluminare (2 vozes, vls e baixos) - Dythyrambus in honorem et laudem div. Antonii Olossiponensis, musicis notis inclusit Josephus Antonius musicus Verbum caro (vozes, vl e órgão)

Abreviaturas:

ob – oboé
vl – violino
vls – violinos
tr – trompa
tp – trompete
bc – baixo contínuo

S – soprano
C – contralto
T – tenor
B – baixo

BN – Biblioteca Nacional
BA – Biblioteca da Ajuda

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